01/09/2010

O Pequeno Mago


Já perdido na terra dos orientais, o pequeno príncipe se cansou de talhar sua malha de angústia com linhas de lã.


Ele queria um prazer ainda mais intenso do que o vento que subjuga as montanhas geladas daquele pólo em que estava morando desde o ano passado.


O pequenino ansiava por passar a vista na visita do seu coração. As veias de seu peito estavam doces e sem coloração.


Na realidade ele estava triste, sozinho e uma leve inquietação abalava o seu peito na tempestade. Sua família há muito não via e a saudade aumentava conforme a neve caía.


O pequeno príncipe principiava seu estudo de mago. Ele estava sem um mestre e isso dificultava, mas havia em sua mochila uma apostila de magia branca e com esta ele estudava.


Carregava uma lanterna cor-de-rosa e na caverna em que morava, protegido do frio, estudava. Começara já a praticar alguns ensinamentos.


O primeiro havia sido a capacidade de mudar objetos de lugar. Podia trazer lenha da floresta para se esquentar, podia trazer uma flor congelada, ou puxar seu cobertor. Tudo com o pensamento.


A segunda lição havia sido a capacidade de transformar uma coisa em outra coisa. Por exemplo, sua apostila em um cãozinho, sua caneta em varinha mágica, sua roupa velha em roupa nova.


A terceira lição, estava aprendendo. Era a capacidade de voar para onde quisesse em poucos segundos.


Para realizar a quarta capacidade, o pequeno príncipe teria de encontrar um mestre. Era esse o desafio.


O pequeno passou dois meses com o treinamento do vôo. Todos os dias, às cinco horas da tarde, quando já era noite por causa do inverno, ele fechava os olhos, imaginava o lugar para onde desejava ir e se soltava.


Sentia os pés se desprenderem do chão, suas mãos formigavam, sua barriga ficava fria e ele subia. A primeira vez que tentou a tarefa, caiu do teto da caverna, era falta de fé. Precisava acreditar no resultado e não temer.


Sua primeira viagem completa foi para o Brasil. O pequenino conseguiu descer numa praia paradisíaca e meditar por ali. Conseguiu lá mesmo, até realizar as outras capacidades que já havia adquirido, como trazer objetos distantes e transformar o que quisesse.


O principezinho voltou para a caverna satisfeito e percebeu que dentro de si as coisas estavam mudando. Era um tipo de crescimento amadurecido. Sentia-se fortalecido, pleno de luz branca.


Cozinhou o seu jantar, comeu e adormeceu. Sem explicação alguma, o pequeno acordou em Bagdá. Ouviu o som de flautas e clarinetes, sanfonas e viola.


Ficou encantado, mas percebeu o seu estado de mendicância. Fechou os olhos em meditação para tentar compreender como havia chegado até ali. Sentia fome, como iria falar aquela língua?


Viu uma mocinha passar e fazendo gestos com as mãos, explicou a ela que sentia fome e queria ser seu amigo.


A menina sentou-se ao seu lado, retirou de sua bolsa algumas frutas e deu a ele de comer.


Ele percebeu que ela era muda e ficou feliz por tal amizade. Ela o levou pelas mãos até sua casa, um abrigo humilde, infinitamente belo por suas flores.


Havia flores por toda a entrada da casa e dentro do jardim havia um pavão belíssimo. O príncipe ficou lisonjeado.


Não parecia haver ninguém na casa senão essa amiga. Eles entraram.


Ao chegarem ao quarto da mocinha, para o espanto do principezinho, ela retirou seus cabelos, que eram de mentira, e se transformou numa mulher de 40 anos, careca, muito, mas muito mais bonita do que a menina que ele havia conhecido.


O príncipe fez cara de quem não entendeu a situação e ela, não parecendo nada muda, começou a falar.


Explicou-lhe que havia chegado a grande hora do principezinho, que ela era a mestra que ele procurava. Ela o elogiou, o parabenizou e ele contou-lhe a sua história.


Contou da apostila, da saudade que sentia de sua família e do que já sabia fazer em mágica.


A mestra lhe disse que se chamava princesa Filomena e se ofereceu para voarem juntos até a caverna onde o príncipe morava. Eles então foram para lá.


Enfim, a quarta capacidade estava agora realizada. O pequeno príncipe encontrara o seu mestre, ou melhor, sua mestra.


Princesa Filomena adorou a casa do pequeno príncipe e cozinhou naquela noite o jantar para os dois. Fez filhotes de gansos na chapa. Estava delicioso e eles foram se aquecer na lareira.


Principezinho disse à Filomena que a saudade que tinha de sua terra natal e de sua família não era pequena, e contou a ela como sofria. Ele tinha apenas nove anos de idade e não queria para sempre viver sozinho.


A mestra, muito compreensiva, ouviu toda a dor do príncipe e disse que no dia seguinte eles poderiam visitar sua família.


Pequeno príncipe mal dormiu tamanha sua ansiedade. Arrumou suas coisas, quis dormir de janela aberta e agradeceu às estrelas.

“Obrigado, amigas estrelas, nem acredito em minha recompensa, obrigado, Grande Mago. Sou um menino feliz e abençoado!”


A manhã do dia tão esperado estava linda, limpa e o ar estava fresco. Filomena chamou o principezinho e disse-lhe que fariam a viagem num carro mágico.


O carro, acreditem se quiser, era feito de nove gansos crescidos e saudáveis, brancos e lindos, exatamente aqueles que na noite passada haviam jantado na chapa. Mais uma mágica de uma maga.


Foram voando no céu até atingirem o ponto exato da Índia em que a família do príncipe morava. Desceram.


Filomena disse ao pequeno que ali era o lugar onde ele deveria agora morar. Disse que ela estaria disponível sempre que ele precisasse e desejou que sua vida fosse a de um mago de sorte.


O pequeno a viu voar no céu com os gansos e deixou cair uma lágrima. Esta se transformou num colar sagrado de penas.


Ele entrou em sua casa e sua família o recebeu de muito bom grado. Foi ele um príncipe-mago felizardo.


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